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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os partidos e os cidadãos

A vitória da coligação PSD/CDS nas eleições de 5 de Junho não aconteceu porque as pessoas confiavam nestes partidos, mas sim porque a crise levou-nos a rejeitar o líder socialista José Sócrates. Além disso havia a consciência de que à direita existem dois partidos capazes de se entender, enquanto à esquerda o PS não consegue encontrar um parceiro para governar.

A minha leitura é que os eleitores votaram na estabilidade governativa. Mas, desta vez optaram por uma coligação e não por um governo de um só partido. Os governos de maioria absoluta não são sinónimos de estabilidade e as pessoas começam a ter consciência disso.

Assim, se justifica que o chamado bloco central PS e PSD esteja a contrair. Por um lado as pessoas deixaram de confiar nos partidos e por outro pensam que os governos de maioria monopartidária não são benéficos. Estes dois factores juntos explicam a quebra eleitoral do PS e a incapacidade do PSD em obter uma maioria absoluta só por si.

É verdade que nunca um governo de coligação chegou ao fim da legislatura em Portugal, mas em condições tão exigentes é possível que tal venha a suceder. A história recente também nos contemplou com um governo minoritário de António Guterres que chegou ao fim da legislatura quando tal nunca sucedera. Mas, mesmo que o governo não chegue ao fim da legislatura esse não será o principal problema político português.

O principal problema que os políticos e os partidos têm de enfrentar é a crise de confiança. Os cidadãos deixaram de confiar nos políticos e nos partidos. Há mais vida para além dos partidos, e isso é positivo em democracia, mas muitos políticos tendem a não querer ou perceber isso.

A manifestação da Geração à Rasca do dia 12 de Março deu pela primeira vez corpo em Portugal ao universo dos descrentes na política e nos partidos. Os eleitores tornaram-se mais capacitados, a democracia enraizou-se na sociedade, só que os partidos não reflectem isso. Os eleitores estão mais conscientes e tornaram-se mais exigentes, porém os políticos nem sempre estão ao nível da exigência que os eleitores pretendem, e estes acabam por escolher o menos mau. Os cidadãos já não se revêem em partidos, mas sim em ideias. Os partidos fecham-se em si mesmos, enquanto as ideias deslizam livremente entre os diversos sectores da sociedade.

Para finalizar, quero divagar sobre os movimentos cívicos, pois a pergunta impõe-se: qual é o seu futuro? Na minha modesta opinião SE optarem por se apresentarem apenas como movimentos de protesto, à semelhança de alguns partidos, os efeitos práticos serão nulos.

O país precisa de encetar reformas e estes movimentos podem e devem ter uma palavra a dizer do ponto de vista das propostas. Não advogo que estes movimentos se substituam aos partidos ou que se colem directa ou indirectamente a eles, mas que criem arenas de discussão e que apresentem propostas credíveis e sustentáveis. E que depois vão mais longe, que façam e executem algumas dessas propostas, em democracia não é preciso que o governo nos dê autorização para fazermos aquilo que queremos fazer.

Eu não estou indignado com a democracia, sei que ela é uma construção permanente. Portanto, não pretendo exigir dos nossos políticos mais do que exijo de mim próprio: esforço, dedicação e responsabilidade.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

As Abomináveis Ideologias Políticas

As ideologias prometem o paraíso na terra e amarram o pensamento dos crentes, que uma vez convertidos tendem a ficar presos aos espartilhos ideológicos na prática política e no seu discurso, impedindo o estabelecimento de pontes com os outros. Eu não efectuei uma comparação entre a ideologia e a religião ao usar a palavra crente, pois é crente aquele que acredita em algo, não sendo o termo exclusivamente religioso.

A noção de ideologia só surgiu no período da revolução francesa, e muitas acções e ideias foram efectuadas e criadas antes de Napoleão classificar o conde de Tracy e os seus seguidores de "ideólogos" no sentido de "deformadores da realidade". É importante destacar que ideologia não é o mesmo que visões do mundo. As ideologias políticas são um conjunto de ideias, princípios, doutrinas, mitos ou símbolos indissociáveis que explicam como a sociedade deve funcionar, e que pretende uma determinada ordem social, económica e política. São pressupostos teóricos sobre um dado assunto sobre como o mundo deveria ser e não como é. Por outras palavras, as ideologias são profecias que estabelecem fins inalcançáveis.

As ideologias não são estratégias políticas, nem se limitam a questões individuais como a energia nuclear, a legalização das drogas, o aborto, a pena de morte, etc…

As ideologias estabelecem objectivos, expectativas e acções. É por isso que os partidos políticos baseiam os seus programas em ideologias que defendem certas formas de governo, de sistema económico, saúde, emigração, ambiente, comércio, minorias, etc… De forma sintética as ideologias políticas estabelecem fins e métodos, isto é, como o mundo deve ser e como chegar lá.

A liberdade, a justiça e a felicidade são ideias que mesmo que sejam inacessíveis na sua plenitude devem ser promovidas e sustentadas, porque não são ideologias mas sim faróis apartidários e heterogéneos.

A maioria das pessoas gostaria de acabar com a fome, com a miséria, e com a violência. E eu enquanto indivíduo, acredito que estas só serão erradicadas a longo prazo e através de reformas constantes porque nada é eterno. Não se deve mexer naquilo que funciona bem sem uma boa razão, mas aquilo que funciona mal deve ser modificado ou eliminado. Esta visão é modesta para aqueles que acreditam em quimeras ou em líderes iluminados, mas a história prova que todas as tentativas de criar o paraíso na terra levaram ao inferno.